sexta-feira, novembro 13, 2009

O menino chorava no Derby

A quietude me constrange e agonia. Passei dia desses por um menino que chorava copiosamente na Praça do Derby... Alguém viu? Não sei. Eu vi e me constrangeu. Não o menino, mas a quietude de tudo à sua volta. Ninguém percebia. Cada um com seus problemas maiores... Talvez nem seja isso, seja invisível o menino, qual herói de gibi. Mas, faz tempo esse menino, porque falar do danado do menino hoje? Ah! Lembrei dele... Tava lembrando-se de choro. Uma amiga disse que “Viu que a vida é bela e parou de chorar”... coitado, o menino nem viu. Não deu tempo, acho. Não deve ter sido falta de querer... minha vizinha chora muito, acho que ela não quer... ver. Porque ele chorava? Ele tinha dinheiro na mão. Bem apertado, quase virando sua carne. As lágrimas caiam lavando o rostinho sujo... serviu pra limpá-lo um pouco. Agente chora tanto e não vê que os outros choram pior, né? O ônibus ficou parado tempo suficiente para eu ver cada lágrima escorrer lentamente... e os gritos mudos? Ele gritava mudo. Sabe quando agente chora, chora e o choro não tem mais voz? Era assim. Ele tinha uns 12 anos... talvez mais, só que os maus tratos poderiam estar omitindo o tempo. E o maldito ônibus que não saia do lugar! Inferno! Não ia descer e perguntar por que diabos o menino chorava! Oras! Atrasada... e não ia resolver nada mesmo... era até capaz de ele me roubar! Sim, deve ter sido briga de gangue... esses trombadinhas dos infernos e eu aqui sentindo peninha. Ah! Mas ele é um humano como eu! Merda! Não adianta, vou passar o dia mal com isso... maldito cristianismo! Que mané ele é meu irmão?! Eu nem sei bem do meu pai, quanto mais do dele e do dele com o meu então, lascou! Não, eu não tenho responsabilidade com isso, não vou descer e dar uma de “Madre Teresa”... ridículo. Tão boazinha eu! Briguenta, egoísta... nem vou começar com os meus defeitos, já dá outra história. Um romance, talvez. Um romance triste e sem romantismo. É que quando agente acredita em coisas externas superiores carregamos essa sensação de culpa por não estar fazendo algo supostamente “necessário”. Nem adianta dar uma de bonzinho, é puro egoísmo fanático! Carma positivo! Preciso acumular carma positivo! E olhe que nem sou budista! Mas minha curiosidade humana e vil não pode negar que precisava se satisfazer em saber o que se passou, e a vaidade ficou muito tentada a ajudá-lo. Isso tudo sou eu. E agora lembrei isso tudo. Mais um invisível na sarjeta sem história para mim, mas não invisível para mim... Sabe de uma coisa? Acho que vou ceder a minha vaidade egoísta, meus anseios espirituais, egoístas, minha curiosidade, egoísta e levantar a bunda pra tentar ajudar da próxima vez... vai ver assim não preciso ficar lembrando essas coisas na sexta a noite... que saco!
E o menino?

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